CINCO DIAS SEM CELULAR EM SÃO PAULO UM GOLPE, UMA VELHA E UMA INESPERADA FELICIDADE

Na véspera de uma viagem para São Paulo, um hacker invadiu meu celular e aplicou um golpe no qual, confesso, caí. Consegui salvar a conta bancária bloqueando-a a tempo, mas perdi o aparelho, os contatos, o acesso às redes sociais e a tranquilidade.

Ou pelo menos foi o que pensei.

Na manhã seguinte embarquei quase sem dinheiro, sem comunicação e com a sensação de que minha vida digital estava sendo saqueada. Enquanto eu voava para São Paulo, o invasor circulava pelos meus espaços virtuais, entrando em aplicativos, redes sociais e transformando meu celular numa criatura estranha que ligava e desligava sozinha até a bateria finalmente morrer.

Foi um desastre.

Ou melhor: parecia.

Antes do golpe eu já andava incomodada. Participo de grupos de amigos, família, literatura, trabalho e comunidades diversas. Todos importantes. Todos interessantes. Todos produzindo uma avalanche diária de mensagens, vídeos, opiniões, notícias, alertas e convites.

Meu cérebro de velha curiosa adorava tudo aquilo. Mas começou a não dar mais conta.

As mensagens chegavam numa velocidade maior do que minha capacidade de refletir sobre elas. Algumas desapareciam. Outras eu esquecia. Muitas nem chegavam a ser processadas. A sensação era de morar dentro de um aeroporto onde aviões de informações pousavam e decolavam sem parar. Então veio o silêncio.

Sem celular, caminhei por São Paulo como fazia décadas não caminhava: inteira.

Eu estava ali para assistir a duas peças. A primeira, “Hamlet, sonhos que virão”, apresentada nas ruínas do antigo Cine Copan, transformava o clássico “ser ou não ser” numa reflexão contemporânea sobre a existência. A segunda, “Fim de Partida”, de Samuel Beckett, expunha com vigor a solidão, o vazio e as guerras que continuam habitando a humanidade.

Sem notificações interrompendo meus pensamentos, percebi melhor cada cena, cada palavra e cada silêncio.

Também visitei o Museu da Língua Portuguesa. Revivi Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos outros autores que pareciam conversar diretamente comigo, sem intermediários eletrônicos.

Os encontros com minha fi-lha, com o filho do meu companheiro e sua noiva foram ainda mais preciosos. Conversamos demoradamente. Rimos. Comemos bem. Trocamos afetos sem que ninguém precisasse consultar uma tela a cada poucos minutos.

Foi então que compreendi algo curioso.

O hacker havia roubado meu celular, mas me devolvera uma parte de mim mesma.

Durante cinco dias vivi quase sem notificações, sem urgências artificiais e sem a luminosidade permanente da tela disputando atenção com a vida real. Meus pensamentos voltaram a fluir com suavidade. As emoções ficaram mais nítidas. O mundo ganhou profundidade.

Claro que não recomendo golpes, hackers ou celulares destruídos como terapia de autoconhecimento.

Mas recomendo, especialmente aos mais velhos e aos mais jovens também, uma reflexão sobre o espaço que estamos entregando às máquinas dentro de nossas vidas.

O celular é uma ferramenta extraordinária. Aproxima pessoas, facilita tarefas, salva vidas e encurta distâncias.

Mas talvez precise voltar a ser instrumento, e não morador permanente da nossa cabeça.

O hacker provavelmente nunca saberá. Porém, sem querer, deu-me um presente raro: cinco dias de uma velha consigo mesma. E foram dias surpreendentemente felizes.

Publicado 01:00 | Junho. 28, 2026 Tipo – Notícia CIÊNCIA & SÁUDE.

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MÁRCIA ALCÂNTARA
MÉDICA E ESCRITORA
Coordenadora do Programa de Reabilitação Pulmonar do Pulmocenter
pulmocentermar@gmail.com